Geriatria Clínica

Apixabana ou AAS na Fibrilação Atrial Subclínica? Principais Lições do Estudo ARTESiA

Meta description (SEO): O estudo ARTESiA comparou apixabana e AAS em pacientes com fibrilação atrial subclínica. Veja os resultados sobre prevenção de AVC, riscos de sangramento e recomendações clínicas.

Introdução: O Desafio da Fibrilação Atrial em Idosos

A fibrilação atrial (FA) é a arritmia crônica mais comum em idosos, com prevalência que duplica a cada década após os 50 anos. Segundo o estudo ATRIA, enquanto apenas 0,1% das mulheres com menos de 55 anos apresentavam FA, essa prevalência aumentava para 9,1% após os 85 anos. Entre homens, os índices variaram de 0,2% a 11% na mesma faixa etária.

A FA está associada a maior mortalidade e risco de AVC, exigindo protocolos claros de manejo clínico. No entanto, surge uma questão importante: como tratar pacientes com fibrilação atrial subclínica (FASC) — uma condição assintomática, detectada por dispositivos cardíacos implantáveis?

É nesse cenário que o Estudo ARTESiA ganha destaque, comparando o uso da apixabana versus AAS em prevenção de eventos tromboembólicos nesses pacientes.

O Que é Fibrilação Atrial Subclínica (FASC)?

A FASC é caracterizada por:

  • Episódios assintomáticos de curta duração;

  • Detectados por marcapassos, desfibriladores implantáveis (CDI) ou monitores cardíacos;

  • Associada a risco aumentado de AVC e embolia sistêmica, embora menor que na FA clínica.

Estima-se que mais de 1/3 dos pacientes com dispositivos cardíacos implantáveis apresentem episódios de FASC, levantando dúvidas sobre o uso de anticoagulação preventiva.

Objetivos do Estudo ARTESiA

O ARTESiA investigou se a apixabana seria mais eficaz do que o AAS na redução de AVC/embolia sistêmica em pacientes com FASC, avaliando também os riscos de sangramento maior.

Metodologia do Estudo

Critérios de Inclusão

  • Idade ≥ 55 anos;

  • FASC detectada com episódios ≥ 6 min e < 24h;

  • CHA2DS2-VASC ≥ 3;

  • Histórico de AVC prévio ou idade ≥ 75 anos, independentemente do escore.

Critérios de Exclusão

  • FA clínica diagnosticada;

  • Indicação prévia de anticoagulação oral;

  • Sangramento maior não corrigido nos últimos 6 meses;

  • Clearance de creatinina < 25 mL/min.

Tratamento Testado

  • Apixabana: 5 mg 2x/dia (ou 2,5 mg em casos específicos);

  • AAS: 81 mg/dia.

Se os pacientes desenvolvessem FA clínica ou episódios de FA > 24h, o estudo previa mudança imediata para anticoagulação oral plena.

Desfechos Analisados

  • Primário de eficácia: ocorrência de AVC ou embolia sistêmica;

  • Primário de segurança: sangramento maior, segundo a International Society on Thrombosis and Hemostasis;

  • Seguimento médio: 3,5 anos;

  • Estratificação de risco: CHA2DS2-VASC < 4, = 4 e > 4.

Resultados do Estudo ARTESiA

Perfil dos Pacientes

  • Idade média: 76,8 anos ± 7,6;

  • Mulheres: 36,1%;

  • Duração média do episódio mais longo: 1,47 hora;

  • Escore CHA2DS2-VASC elevado correlacionado com idade avançada e maior carga de comorbidades.

Efeito do Tratamento por Categoria de Risco (CHA2DS2-VASC)

CHA2DS2-VASC < 4

  • AVC/embolia sistêmica: 0,85%/ano (apixabana) vs 0,97%/ano (AAS);

  • Sangramento maior: 1,4%/ano (apixabana) vs 1,1%/ano (AAS);

  • Sem significância estatística.

CHA2DS2-VASC = 4

  • AVC/embolia sistêmica: 0,54%/ano (apixabana) vs 0,86%/ano (AAS);

  • Sangramento maior: 1,2%/ano (apixabana) vs 0,9%/ano (AAS);

  • Prevenção de 2,25 eventos tromboembólicos por 100 pacientes, sem aumento significativo de sangramento.

CHA2DS2-VASC > 4

  • AVC/embolia sistêmica: 0,98%/ano (apixabana) vs 2,25%/ano (AAS);

  • HR 0.44 – redução de 56% do risco relativo;

  • Sangramento maior: 2,13%/ano (apixabana) vs 1,45%/ano (AAS);

  • NNTB (número necessário para tratar): 25 pacientes para prevenir 1 AVC;

  • NNTH (número necessário para causar dano): 59 pacientes para causar 1 sangramento maior.

Discussão: O Que os Resultados Significam na Prática Clínica?

  • A apixabana demonstrou redução significativa no risco de AVC/embolia sistêmica, especialmente em pacientes com CHA2DS2-VASC > 4;

  • Para pacientes de baixo risco (< 4), os benefícios foram limitados, e o risco de sangramento pode superar a prevenção de AVC;

  • O grupo intermediário (= 4) requer decisão individualizada, considerando preferências do paciente e perfil de risco;

  • O estudo reforça a utilidade do escore CHA2DS2-VASC também para pacientes com FASC, embora com ajustes nos pontos de corte em relação à FA clínica.

Conclusão: Como o Estudo ARTESiA Pode Mudar a Prática Médica

  • 1 em cada 4 pacientes com FASC tinha CHA2DS2-VASC > 4 e risco elevado de AVC;

  • Para esse grupo, a apixabana previne duas vezes mais AVC/embolia sistêmica do que sangramentos maiores que possa causar;

  • Pacientes com CHA2DS2-VASC < 4 apresentam baixo benefício líquido, não justificando o uso rotineiro de anticoagulação;

  • O grupo intermediário (CHA2DS2-VASC = 4) deve ser avaliado caso a caso, com discussão compartilhada entre médico e paciente.

🔗 Referências principais:

  • Lopes, R. et al. Apixaban versus Aspirin in Subclinical Atrial Fibrillation: Insights from ARTESiA. Journal of the American College of Cardiology, 2024.

  • Freitas, E.V.; Py, L.; Neri, A.L. et al. Tratado de Geriatria e Gerontologia, 4ª edição.

FAQ – Perguntas Frequentes sobre o Estudo ARTESiA

  1. O que é fibrilação atrial subclínica (FASC)?
    É um tipo de FA assintomática, de curta duração, detectada por dispositivos implantáveis como marcapassos.
  2. A FASC aumenta o risco de AVC?
    Sim, embora o risco seja menor que na FA clínica, pacientes com alto escore CHA2DS2-VASC têm risco significativo.
  3. Qual foi a principal conclusão do ARTESiA?
    A apixabana reduziu o risco de AVC/embolia sistêmica, especialmente em pacientes com CHA2DS2-VASC > 4, mas aumentou o risco de sangramento.
  4. Pacientes com baixo risco devem usar apixabana?
    Não. Para pacientes com CHA2DS2-VASC < 4, os riscos superam os benefícios.
  5. O que fazer com pacientes com escore intermediário (CHA2DS2-VASC = 4)?
    A decisão deve ser individualizada, considerando histórico de AVC, preferência do paciente e risco de sangramento.
  6. O AAS continua sendo uma opção válida?
    O estudo mostrou que o AAS é menos eficaz que a apixabana em pacientes de alto risco, mas pode ser considerado em indivíduos de baixo risco.

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