Projeta-se que a prevalência global da Doença de Parkinson (DP) aumentará nas futuras décadas à medida que o número e a proporção de idosos forem crescendo. A incidência e prevalência da DP incrementam com a idade, com uma razão homem/mulher em aproximadamente 2:1. A incidência chega a 77 casos por 100.000 pessoas > 45 anos e até 212 casos por 100.000 pessoas > 65 anos. Logo, em algum momento, você atenderá um idoso portador de DP no consultório, na emergência ou na enfermaria.
Definindo Doença de Parkinson
- DP é uma desordem neurológica multissistêmica causada por degeneração neuronal advinda do depósito de alfa-sinucleína (corpos de Lewy) em regiões específicas do sistema nervoso central e periférico, levando à disfunção dopaminérgica no sistema nigroestriatal.
- Sintomas não motores: distúrbios do sono, declínio cognitivo, alteração do humor, disfunção autonômica (constipação, alterações urogenitais e hipotensão ortostática) e sintomas sensoriais (dor e hiposmia). Alguns desses sintomas, principalmente a hiposmia e transtorno comportamental do sono REM, podem preceder em anos os sintomas motores da DP, sendo considerados prodrômicos.
- Sintomas motores: bradicinesia, tremor de repouso, rigidez e alteração de reflexos posturais.
Causas
- Considera-se a DP uma combinação de fatores genéticos e não genéticos.
- Causas genéticas:
- DP autossômica dominante;
- DP monogênica;
- DP de herança recessiva.
- Exposição a pesticidas e a solventes clorados (risco dose-dependente, aumentando em 40% ou mais o risco de desenvolvimento da DP);
- Alto consumo de laticíneos (bioconcentração de pesticidas organoclorados no leite);
- Traumatismo craniano leve a moderado: alguns estudos relacionam TCE a DP;
- Menos consistente: exposição a metais, DM tipo 2, doenças inflamatórias, infecções.
- Tabagismo, consumo de cafeína e aumento da atividade física.
Critérios diagnósticos (International Parkinson and Movement Disorder Society)
Critérios para Diagnóstico da Síndrome de Parkinsonismo:
- Bradicinesia: Movimentos lentos e progressiva diminuição da amplitude e velocidade dos movimentos repetitivos.
- E um dos seguintes:
- Rigidez muscular (rigidez de “roda denteada” ou rigidez ao exame físico).
- Tremor de repouso (tipicamente de 4-6 Hz).
- Instabilidade postural (não atribuível a problemas visuais, vestibulares, cerebelares ou proprioceptivos).
Critérios Excludentes Absolutos para Doença de Parkinson:
- História de tratamento sintomático para outras condições com melhora significativa.
- História de acidente vascular cerebral recorrente com relação temporal aos sintomas parkinsonianos.
- Traumatismo craniano recorrente.
- Uso atual ou recente de drogas bloqueadoras de dopamina, como neurolépticos, que possam induzir parkinsonismo.
- Ausência de resposta substancial à levodopa.
- Sintomas atípicos como paralisia do olhar vertical, apraxia oculomotora, ou presença de múltiplos sinais neurológicos assimétricos.
- Achados cerebrais estruturais não compatíveis com DP.
Critérios para Apoiar o Diagnóstico de Doença de Parkinson:
- Resposta clara à levodopa: Melhora dos sintomas motores de pelo menos 30-50%.
- Presença de tremor de repouso: Considerado um marcador importante, mas não exclusivo.
- Evolução da doença: Progressão gradual dos sintomas com piora ao longo do tempo.
- Outros sinais de apoio: Anosmia, distúrbios do sono REM, presença de sintomas autonômicos (como constipação ou disfunção urinária), depressão, e outros sintomas não-motores comuns em DP.
Critérios de Confirmação Pós-Morte (Opcional):
- Confirmação histopatológica através da presença de corpos de Lewy em neurônios no sistema nervoso central.
Classificação Diagnóstica:
Com base nesses critérios, a Doença de Parkinson pode ser classificada como:
- Doença de Parkinson Provável: Se os critérios de parkinsonismo são atendidos, não há critérios excludentes absolutos, e existem pelo menos dois critérios de apoio.
- Doença de Parkinson Possível: Se os critérios de parkinsonismo são atendidos, não há critérios excludentes absolutos, e há apenas um critério de apoio.
Curso clínico
- Bradicinesia e tremor tendem a ser assimétricos.
- Com a evolução, bradicinesia, rigidez e tremor passam a ser bilaterais e, junto com distúrbios do equilíbrio e da marcha e disfunção cognitiva, levam ao declínio funcional e perda da independência, quedas e fraturas.
- Sintomas não motores, como hiposmia, disfunção autonômica e transtorno comportamental do sono REM, podem preceder os sintomas motores e a disfunção cognitiva em décadas.
- Outras anormalidades autonômicas, como hipotensão ortostática, alteração da motilidade gastrointestinal, disfunção urinária e erétil e alteração da termorregulação, podem se apresentar precocemente e progredir com a doença.
- A perda cognitiva evolui em cerca de 10% dos pacientes anualmente.
Tratamento
Não farmacológico
- Exercício físico regular, boa qualidade do sono e dieta balanceada foram relacionados à redução de mortalidade.
- Abordagem multidisciplinar (com neurologista, profissional de saúde mental, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional e fonoterapeuta) deve acontecer precocemente.
Farmacológico
Nenhuma terapia é capaz de diminuir a progressão da DP até então.
Levodopa
- Principal tratamento farmacológico da DP.
- Doses iniciais de 25 a 50mg 3x ao dia. Dose máxima: 1400mg/dia.
- Administração 1 hora antes ou após alimentação.
- Efeitos colaterais:
- Náusea, vômito e hipotensão ortostática: geralmente transitórios e podem ser evitados com titulação gradual.
- Flutuações motoras e discinesia: costumam acontecer após 5 anos de tratamento.
- Alucinações e distúrbios do comportamento.
Pramipexol (agonista dopaminérgico não ergolínico)
- Adjuvante da levodopa para melhorar os sintomas motores e reduzir o tempo off da medicação.
- A combinação com levodopa ajuda a manter sua dose mais baixa, diminuindo o risco de complicações motoras.
- Iniciar com 0,375mg/dia com progressão lenta até dose máxima diária de 4,5mg.
- Efeitos colaterais:
- Náusea, vômito e hipotensão ortostática: podem ser evitados com titulação gradual.
- Alucinações.
- Instabilidade postural com tendência a queda.
- Sedação: efeito colateral dose-dependente, podendo ocorrer episódios súbitos não intencionais de sono.
- Transtorno do controle de impulsos: jogo patológico, hipersexualidade, compulsão alimentar e por compras.
IMAO-B (inibidores da monoaminoxidase B)
- Indicados em monoterapia na fase inicial da doença ou nas fases avançadas, em combinação com outros fármacos.
- Selegilina: iniciar com 5mg/dia até dose máxima de 10mg/dia.
- Rasagilina: 1mg/dia.
- Efeitos colaterais:
- Podem aumentar a discinesia em pacientes tratados com levodopa (pode ser controlado com a redução de dose da levodopa).
- Selegilina é metabolizado para uma anfetamina, o que pode causar insônia (administrar antes da metade do dia). Deve ser usado com cautela em cardiopatas.
- Rasagilina não forma metabólito anfetamínico, apresentando maior segurança cardiovascular.
ICOMT (inibidores da catecol-O-metiltransferase
- Aumentam a meia-vida da levodopa: potencialização do efeito clínico da levodopa, aumentando em 30 a 40 minutos seu efeito em pacientes que apresentam deterioração em fim de dose.
- Não produzem efeito antiparkinsoniano quando prescritos sem a levodopa.
- Entacapona: 200mg até 8x/dia.
- Efeitos colaterais:
- Aqueles decorrentes da potencialização da levodopa, como aumento das discinesias.
- Dor abdominal, diarreia e náuseas.
Amantadina
- Seu efeito antiparkinsoniano é discreto.
- Costuma ser indicada nas fases avançadas da DP por sua ação antidiscinética.
- Dose inicial 100mg/dia com progressão lenta até dose máxima de 400mg/dia.
Anticolinérgicos
- Biperideno, triexifenidil.
- Medicações não mais usadas atualmente por seus efeitos indesejáveis, principalmente em idosos: retenção urinária, glaucoma, comprometimento cognitivo.
Demência relacionada à DP
- Resposta modesta ao tratamento com inibidores da acetilcolinesterase ou memantina. Apenas a rivastigmina é classificada como útil pela International Parkinson and Movement Disorder Society.
Depressão e ansiedade
- Inibidores seletivos da receptação de serotonina, duais ou, menos comumente, agonistas dopaminérgicos.
- Atenção especial às interações medicamentosas e ao desenvolvimento de síndrome serotoninérgica.
Alucinações
- Podem ser tratadas com pimavanserina ou antipsicóticos atípicos.
Sintomas autonômicos
- Aumento da ingesta hídrica, do consumo de sal, meias compressivas e até medicações que objetivem o aumento da pressão arterial, como a fludrocortisona.
Hipersalivação
- Atropina sublingual ou aplicação de toxina botulínica em glândula salivar.
Constipação
- Laxativos e aumento da ingestão de fibras.
Alterações do sono (transtorno comportamental do sono REM)
- Terapia cognitivo-comportamental
- Melatonina ou clonazepam em baixas doses.
Tratamento cirúrgico: estimulação cerebral profunda
- Geralmente indicada quando refratariedade ao tratamento farmacológico ou quando manifestações da doença podem ocasionar comprometimento funcional ou social.
- Melhora qualidade de vida e alivia as flutuações motoras.
- Aumenta os períodos on em média em 3-4 horas ao dia e reduz em média 50% da dose de medicação.
REFERÊNCIAS:
– Tanner, Caroline M, Ostrem, Jill L. Parkinson’s Disease. N Engl J Med 391;4. 1 August, 2024.
– Geriatria. Diniz, Lucas Rampazzo, et.al. 1 ed. Rio de Janeiro: Medbook, 2020.