Geriatria Clínica

DISFUNÇÃO SEXUAL EM MULHERES IDOSAS VAMOS FALAR SOBRE ESSE ASSUNTO?

Na sociedade, diversos mitos e atitudes são atribuídos às pessoas com idade avançada e alguns estão relacionados à sexualidade. Existe uma concepção de que idosos são pessoas assexuadas, o que dificulta a discussão sobre sexualidade nesta faixa etária.

A proporção de idosos com vida sexual ativa vem aumentando (50% dos homens e 30% das mulheres, segundo estudos realizados nos EUA e Inglaterra), o que reforça a necessidade de estarmos preparados para abordar o tema em nosso consultório.

Anteriormente, nesta plataforma, abordamos a disfunção sexual em homens idosos. Hoje vamos falar sobre esta situação entre as mulheres de idade avançada.

 

Um preâmbulo sobre disfunção sexual em mulheres

  • Não existe uma definição universal sobre função sexual normal; o que constitui uma dificuldade sexual é determinado pela percepção subjetiva de alguém sobre o estado de bem-estar sexual insatisfatório.
  • A disfunção sexual afeta negativamente saúde mental, vitalidade e funcionamento social, e possui um efeito global sobre a qualidade de vida, em magnitude similar a lombalgia crônica ou diabetes.

 

Classificação da disfunção sexual em mulheres

O 11° Código Internacional de Doenças reconhece que a resposta sexual é influenciada por uma interface complexa entre fatores biológicos, psicológicos e sociais.

 

Categoria da Disfunção

Manifestação ou Descrição

Desejo sexual hipoativo

Ausência ou redução importante do desejo ou motivação para engajar uma atividade sexual, manifestada por um dos seguintes: desejo espontâneo reduzido ou ausente, redução ou ausência de resposta a estímulos eróticos, ou inabilidade de sustentar o desejo ou interesse na atividade sexual já iniciada

Disfunção da excitação sexual

A despeito do desejo por atividade sexual e do estímulo sexual adequado, ausência ou redução importante em um dos seguintes: respostas genitais (lubrificação vaginal, intumescimento ou sensibilidade genital), respostas não genitais (enrijecimento dos mamilos, flushing na pele, ou aumento da frequência cardíaca, pressão arterial ou frequência respiratória), ou sentimentos de excitação sexual (excitação sexual e prazer sexual).

Disfunção do orgasmo

Ausência ou redução importante da frequência do orgasmo ou redução importante da intensidade das sensações orgásticas, incluindo atraso importante do orgasmo, a despeito do desejo por atividade sexual e orgasmo, e estímulo sexual adequado.

Outras disfunções não especificadas

Não especificado

*Tabela extraída e traduzida do artigo “Sexual Dysfunction in Women”, NEJM.

 

Prevalência

  • A redução do desejo sexual pelas mulheres progride com a idade, com o surgimento da disfunção do desejo sexual hipoativo acontecendo geralmente durante a meia idade.
  • Segue resultado de estudo populacional sobre o assunto conduzido nos EUA, Europa e Austrália:
    • O percentual de mulheres com disfunção inespecífica da excitação foi de: 
      • 3 a 9% (18 a 44 anos) 
      • 5 a 7,5% (45 aos 64 anos)
      • 3 a 6% (> 65 anos).
    • Anorgasmia foi relatada em:
      •  7 a 8% (< 40 anos)
      • 5 a 7% (40 a 64 anos)
      • 3 a 6% (> 65 anos).

 

Condições médicas contribuintes

  • Insuficiência estrogênica (marco da menopausa)
  • Amenorreia hipotalâmica
  • Hiperprolactinemia
  • Hipopituitarismo
  • Insuficiência adrenal
  • Diabetes
  • Doenças crônicas, principalmente as que reduzem mobilidade ou causam dor crônica
  • Prolapso de órgão pélvico
  • Doenças mentais
  • Terapia para câncer
  • Depressão
  • Medicações psicotrópicas, cardíacas e anti-hipertensivas
  • Fatores psicológicos: dificuldades no relacionamento, baixa autoestima, abusos atuais ou passados, estresse, crenças e expectativas socioculturais
  • Terapia antiestrogênica (inibidores da aromatase ou moduladores seletivos do receptor estrogênico)
  • Redução do desejo sexual relacionada aos sintomas de insuficiência estrogênica (ondas de calor e suor, mudanças do humor, distúrbios do sono ou secura vaginal).
  • A redução dos níveis de testosterona não tem sido consistentemente associada à baixa satisfação sexual. No entanto, numa análise em que alguns contextos sociodemográficos foram levados em consideração, baixos níveis de testosterona foram associados independentemente à satisfação sexual em mulheres na pré-menopausa.

 

Abordagem

  • Menos de 50% das pessoas com disfunção sexual procuram atendimento médico: isto reforça a importância do screening nas consultas de rotina.
  • É importante reconhecer que mulheres sem parceiros ou inativas sexualmente podem apresentar disfunção sexual e que esta condição não possui limite de idade.
  • Uma estratégia é lançar uma pergunta aberta sobre se a paciente possui alguma preocupação relacionada ao sexo.
  • Importante estabelecer se o problema é recente, se é generalizado, situacional ou específico com um determinado parceiro.
  • Buscar por irregularidade menstrual (em mulheres na pré-menopausa), atrofia vulvovaginal, desordens do assoalho pélvico, cirurgias ginecológicas, dispareunia e vaginismo.
  • Buscar por medicações prescritas e automedicação, consumo de álcool e outras drogas.
  • Exames laboratoriais e de imagem devem ser guiados pelos sintomas apresentados e achados no exame físico.
  • A dosagem de testosterona não apresenta serventia diagnóstica pois não existe um nível sob o qual uma mulher possa ser classificada como portadora de insuficiência de testosterona.
  • Os níveis de testosterona só devem ser dosados para se obter um valor basal antes do início da terapia com o hormônio.

 

Tratamento

  • O tratamento deve levar em consideração os desejos da paciente e pode ser necessário envolvimento do parceiro.
  • Atenção aos fatores modificáveis, principalmente medicações.
  • Intervenções no estilo de vida: estudo com obesas e diabéticas mostrou que 28% das mulheres que aderiram à mudança do estilo de vida apresentaram melhora na disfunção sexual, em comparação a 11% daquelas que receberam apenas suporte.
  • Intervenções psicossociais são bastante efetivas no tratamento da disfunção sexual.
  • Terapia sexual pode envolver treinamento de relaxamento do assoalho pélvico, terapia dilatadora vaginal (portadoras de vaginismo) e dispositivos destinados ao clitóris com o objetivo de aumentar a excitação sexual.

 

Farmacoterapia

  • Embora a terapia estrogênica não seja um tratamento para a disfunção sexual generalizada, a terapia hormonal deve ser considerada para os sintomas menopausais, uma vez que estes podem contribuir para a disfunção sexual.
  • Dispareunia por deficiência estrogênica pode ser tratada com creme de estrógeno vaginal tópico, pessário ou anel, prasterona (SDHEA de uso vaginal), ospemifeno oral ou hidratantes vaginais.
  • Flibanserina e bremalonotida são usados nos EUA para o tratamento de disfunção sexual generalizada ou disfunção do desejo sexual hipoativo adquirido em mulheres na pré-menopausa. A eficácia é modesta e estas medicações apresentam efeitos adversos consideráveis (tontura, sonolência, náusea, fadiga).
  • Não existem terapias aprovadas para mulheres na pós-menopausa com disfunção do desejo sexual hipoativo, no entanto, testosterona tem sido prescrita off label desde os anos 40.
  • Uma força-tarefa internacional concluiu que a terapia com testosterona transdérmica, que restabelece os níveis de testosterona próximos àqueles encontrados na pré-menopausa, é moderadamente efetiva para o tratamento da disfunção do desejo sexual hipoativo em mulheres na pós-menopausa.
  • A força-tarefa não recomendou o uso de testosterona oral devido aos efeitos adversos potenciais relacionados aos níveis de lipoproteína e absorção inconsistente.
  • A testosterona transdérmica, quando administrada na dose recomendada, pode causar surgimento de acne, crescimento de pelos no rosto ou no corpo e ganho de peso. Faltam dados quanto à segurança do uso a longo prazo.
  • Bupropiona e buspirona são psicotrópicos que tem sido usados off label em pacientes com disfunção sexual, porém, eficácia e segurança são desconhecidas, e nenhuma destas terapias é recomendada.
  • Infelizmente, ainda não se dispõem de farmacoterapias destinadas à excitação e à disfunção do orgasmo em mulheres, principalmente em idosas, no que concerne a preocupação com os riscos a longo prazo.

 

REFERÊNCIAS:

– Davis, Susan R, et al. Sexual Dysfunction in Women. N Engl J Med, 391;8. Agosto, 2024.

– Geriatria. Diniz, Lucas Rampazzo, et.al. 1 ed. Rio de Janeiro: Medbook, 2020.

Aproveite e ouça o nosso podcast

Veja esse artigo também