Introdução
A reposição de testosterona tem crescido de forma exponencial nos últimos anos entre homens que buscam promessas de melhora no desempenho físico, sexual, nos transtornos do humor, na vitalidade. O uso indiscriminado do hormônio, sem a devida indicação, é palco de vários estudos que procuram entender as repercussões a médio/longo prazo desta terapêutica.
É fato que a produção de testosterona decai com a idade. No European Male Aging Study (EMAS), realizado em homens entre 40 e 79 anos, observou-se que a testosterona total (TT) apresentou queda de 0,4% ao ano, enquanto a testosterona livre (TL) teve queda de 1,3% ao ano.
No Baltimore Longitudinal Study of Aging, a proporção de pacientes com diagnóstico laboratorial de hipogonadismo (TT < 325 ng/dL) foi de 20% (homens entre 60 e 69 anos), 30% (de 70 a 79 anos) e de 50% (de 80 a 89 anos).
Entre estes pacientes, parece haver um fator gonadal primário, levando ao déficit de testosterona, sem haver, por outro lado, uma reação proporcional de gonadotrofinas (LH e FSH) capaz de compensar essa disfunção.
Quais Fatores Presentes nos Idosos Levam à Supressão do Eixo?
- Maior taxa de tecido adiposo no idoso;
- Hiporresponsividade relativa da secreção de LH frente à redução dos níveis de testosterona;
- Resistência à leptina (nos casos de obesidade);
- Aumento da SHBG (proteína ligadora de testosterona), o que reduz a TL, forma ativa da testosterona.
Sintomas de Hipogonadismo
Alta Suspeição
- Redução da libido ou de ereções espontâneas;
- Ginecomastia;
- Redução dos pelos corporais ou da frequência do ato de se barbear;
- Redução progressiva do volume testicular;
- Infertilidade / azoospermia;
- Baixa massa óssea;
- Fogachos (raros – só ocorrem nas quedas hormonais rápidas).
Sintomas Inespecíficos
- Falta de energia / motivação / autoconfiança;
- Depressão / distimia;
- Perda de memória e concentração;
- Alterações do sono;
- Anemia leve normo-normo;
- Perda de força;
- Aumento da gordura corporal e do IMC;
- Redução da capacidade de trabalho.
Quem Rastrear?
- O rastreio só é recomendado na presença de sintomas de alta suspeição ou na positividade de escores clínicos específicos.
- Escore ADAM (Androgen Deficiency in the Aging Male): positivo se resposta para as questões 1 ou 7 for positiva, ou se resposta positiva para 3 ou mais das outras questões:
1 | Tem observado redução da libido? |
2 | Tem observado falta de energia? |
3 | Percebeu diminuição da força muscular? |
4 | Perdeu altura? |
5 | Perdeu alegria de viver? |
6 | Fica triste ou rabugento com frequência? |
7 | Percebe que as ereções são menos vigorosas? |
8 | Diminuiu capacidade para atividades esportivas? |
9 | Sente sonolência após o jantar? |
10 | Tem percebido piora no desempenho profissional? |
- Se bem fundamentada hipótese clínica, realizar dosagem de testosterona total (TT) entre 8 e 10h da manhã, em jejum.
- Se compatível com níveis de hipogonadismo, realizar mais 1 a 2 dosagens para confirmação.
- Diagnóstico de certeza: TT < 240 ng/dL;
- Faixa duvidosa: TT entre 241-350 ng/dL;
- TL < 6,5 ng/dL.
- Dosagem deve ser realizada em jejum pois ingestão de glicose pode induzir resultados falso-positivos, ao suprimir níveis séricos de testosterona.
- Não se deve realizar a dosagem de TL de rotina, uma vez que o método só é confiável se por diálise de equilíbrio, realizado por poucos laboratórios especializados em análises endócrinas.
- Dosar TL nas seguintes condições que alteram a concentração de SHBG:
- Obesidade;
- Síndrome nefrótica;
- Hipo ou hipertireoidismo;
- Uso de corticoides, andrógenos, progestógenos, anticonvulsivantes e estrógenos;
- Diabetes;
- Cirrose;
- AIDS.
- Homens com doença aguda ou subaguda não devem ser avaliados quanto a hipogonadismo, uma vez que podem apresentar hipogonadismo secundário transitório.
- Não rastrear hipogonadismo em idosos frágeis, já que não há evidência até o momento de melhora clínica com terapia de reposição de testosterona nestes pacientes.
Hipogonadismo Diagnosticado – Como Diferenciar Primário do Secundário?
- Diante do diagnóstico de hipogonadismo, solicitar dosagem de LH e FSH.
- Hipogonadismo Primário (falência gonadal):
- LH e FSH altos: solicitar cariótipo se suspeita de síndrome de Klinefelter.
- Hipogonadismo Secundário (origem hipotalâmico-hipofisária):
- LH e FSH baixos ou normais: triagem para hemocromatose e dosagem de prolactina;
- Se TT < 150 ng/dL (hipogonadismo grave), pan-hipopituitarismo, hiperprolactinemia persistente, sinais ou sintomas de efeito de massa tumoral: realizar RMN da região selar.
Tratamento
Indicado para pacientes com hipogonadismo sintomático e diagnóstico laboratorial estabelecido.
Formulações tópicas:
- Géis de testosterona a 1%: 5 a 10g por aplicação diária em área extragenital e coberta.
- Androgel® (envelopes de 25 e 50mg de testosterona gel): tituláveis até 100mg/dia.
- Axeron ®: doses de até 30mg, fracionáveis e tituláveis até 120mg/dia.
Formulações intramusculares:
- Cipionato de testosterona (Deposteron® – ampola de 200mg)
- Pico entre 2 e 5 dias após aplicação;
- Níveis decaem até 20 dias após aplicação;
- Manter aplicações a cada 3 semanas para manter níveis séricos.
- Ésteres conjugados de testosterona (Durateston® – ampola de 250mg)
- Aplicação se assemelha à do cipionato.
- Undecanoato de testosterona (Nebido® – ampola de 1.000mg)
- Reposição mais fisiológica, sem causar picos;
- Dose inicial seguida de nova dose após 6 semanas e, após, aplicação trismestral.
Formulações orais
- Undecanoato de testosterona (Androxon 40mg)
- Único andrógeno recomendado para uso oral;
- Dose inicial necessária: 120-160mg/dia durante 3 semanas;
- Dose subsequente de 40-120mg/dia conforme avaliação clínica.
Quais as Contraindicações?
- Câncer de mama ou próstata;
- Hematócrito > 50% (risco de poliglobulia e evento trombótico relacionado);
- Apneia do sono grave não tratada;
- Insuficiência cardíaca descompensada;
- Sintomas graves de obstrução da via urinária inferior (AUA/IPSS > 19);
- Desejo de manter fertilidade;
- PSA > 4 ng/dL ou PSA > 3 ng/dL em homens com alto risco para câncer de próstata (negros ou história familiar de primeiro grau com a doença).
Monitoramento
- Checar efetividade clínica, aderência, efeitos colaterais e concentração sérica de TT após 3 a 6 meses do início do tratamento.
- Alvo de TT: valores na faixa intermediária de normalidade para a idade.
- Monitorar hematócrito: se > 54%, interromper tratamento até normalização, avaliar paciente quanto a hipóxia ou apneia do sono, e reiniciar com dose menor.
- Densitometria óssea: realizar após 1 a 2 anos de reposição.
- Se PSA basal > 0,6 ng/dL: monitoramento nos tempos 0, 3 e 6 meses após início, e então de acordo com as diretrizes próprias de screening para câncer de próstata.
- Referenciar para urologista se aumento no PSA > 1,4 ng/dL em 12 meses ou 0,4 ng/dL em 6 meses ou se AUA/IPSS > 19.
Riscos Cardiovasculares
- Estudos conflitantes e limitados quanto ao risco cardiovascular na terapia com testosterona.
- Orienta-se considerar risco cardiovascular antes da prescrição: evitar prescrição se risco alto, com doença preexistente ou recente.
REFERÊNCIAS:
– UpToDate;
– Tratado de Geriatria e Gerontologia. Freitas, E.V.; Py, L.; Neri, A. L.; Cançado, F. A.. X.C.; Gorzoni, M.L.; Doll, J. 5ª. Edição.