Geriatria Clínica

DESCOMPLICANDO A AVALIAÇÃO GERIÁTRICA AMPLA

Você já deve ter se perguntado por que a consulta do paciente idoso costuma ser tão diferente do que o médico está acostumado a realizar no seu dia-a-dia do consultório. 

 

Segundo estudo de 2012 de Barnett et. al, 65% dos indivíduos entre 65 e 84 anos e 82% daqueles com mais de 85 anos são portadores de multimorbidades. E o desfecho costuma ser o que segue:

– Mais problemas cognitivos, funcionais e psicossociais;

– Maior risco de manifestação atípica de doenças comuns;

– Maior propensão a iatrogenia, fragilização, síndromes geriátricas, institucionalização e admissões e readmissões hospitalares.

 

Para facilitar e guiar o atendimento ao paciente idoso, com foco num diagnóstico multidimensional e interdisciplinar, lançamos mão da ferramenta Avaliação Geriátrica Ampla (AGA). De acordo com Freitas et. al, no Tratado de Geriatria e Gerontologia: “A diferença da AGA para um atendimento médico habitual é que ela prioriza o estado funcional e a qualidade de vida, utilizando instrumentos de avaliação, facilitando a comunicação entre os membros da equipe interdisciplinar e a comparação evolutiva.”

 

Agora vamos compilar as escalas mais utilizadas na AGA para auxiliá-los na aplicabilidade dessa ferramenta na prática clínica, avaliando cada domínio abordado. 


  • FUNCIONALIDADE
    1. Atividades básicas da vida diária (ABVD’s) – Katz

A cada item que o paciente for capaz de realizar sozinho soma-se um ponto.

 

  • Tomar banho
  • Vestir-se (pode ter ajuda para amarrar os sapatos)
  • Uso do vaso sanitário
  • Transferências
  • Continência
  • Alimentação (pode ter ajuda para passar manteiga no pão ou cortar a carne).

 

Pontuação

  • 0: totalmente dependente; 
  • 1-5: parcialmente dependente; 
  • 6: totalmente independente.

 

  1. Atividades instrumentais da vida diária (AIVD’s) – Lawton

Atribui-se 1 ponto se paciente for incapaz, 2 pontos se necessitar de ajuda e 3 pontos se não necessitar de auxílio para executar as seguintes tarefas: 

 

  • Uso do telefone
  • Realizar compras
  • Preparo de refeições
  • Realizar tarefas domésticas
  • Arrumar a casa
  • Lavar roupas
  • Utilizar meio de transporte
  • Manuseio de medicação
  • Manuseio de dinheiro

 

Pontuação: vai de 3 a 27 e não há um ponto de corte específico. A Escala de Lawton sofre influências culturais e possui valor evolutivo, ao comparar paciente com ele mesmo ao longo do tempo.


  • MOBILIDADE E RISCO DE QUEDA
    1. Perguntar ao paciente se ele sofreu alguma queda nos últimos 12 meses: risco de 60-70% de nova queda.
    2. Timed Up and Go Test (TUGT): consiste em levantar de uma cadeira, caminhar em linha reta uma distância de 3 metros, virar, caminhar de volta e sentar-se novamente.

 Pontuação:

  • < 10 segundos: independente, normalidade.
  • 11- 20 segundos: independente em transferências básicas (baixo risco de queda).
  • > 20 segundos: dependente em várias atividades e na mobilidade (alto risco de queda).


  • SARCOPENIA
  • Avaliação da massa muscular
      1. Medida da panturrilha: < 31cm (considerar obesidade, edema)
      2. RM, Bioimpedância
      3. Densitometria de corpo inteiro:
  • < 5,5 Kg/m2 para mulheres
  • < 7 Kg/m2 para homens

3.2 Avaliação da força muscular: 

3.2.1 Força de preensão palmar (FPP)

  • < 16kg para mulheres
  • < 27kg para homens

3.2.2 Avaliação do desempenho:

  • TUGT >/= 20 segundos
  • Velocidade de marcha </= 0,8m/s
  • Caminhada 400m >/= 6 min ou não completar o teste

 

Classificação

Sarcopenia provável

Baixa força muscular

Sarcopenia

Baixa força muscular + baixa quantidade ou baixa qualidade muscular

Sarcopenia grave

Baixa força muscular + baixa quantidade + baixa qualidade muscular 


  • FRAGILIDADE

 

F

Fatigue (fadiga)

R

Resistence (resistência: subir um lance de escadas)

A

Ambulation (deambulação: andar um quarteirão)

I

Ilness (comorbidades: 5)

L

Loss of weight (perda de peso > 5%)

 

Classificação: atribui-se 1 ponto para cada resposta positiva.

  • >/= 3 pontos: Frágil
  • 1 ou 2 pontos: Pré-frágil
  • 0 pontos: Robusto


  • HUMOR

 

  1. Geriatric Depression Scale (GDS): rastreio positivo se SIM para 5 ou mais perguntas.




  • PHQ-9

 

Pontuação

  • 0 a 4: Ausência de depressão.
  • 5 a 9: Depressão leve.
  • 10 a 14: Depressão moderada.
  • 15 a 19: Depressão moderadamente grave.
  • 20 a 27: Depressão grave.


  • COGNIÇÃO
  • 10-CS

 

Pontuação 

  • 8 pontos: normal
  • 6 – 7 pontos: possível comprometimento
  • 0 – 5 pontos: provável comprometimento
  • MEEM

 

Pontuação:

  • Analfabeto: 20
  • 1 – 4 anos: 25
  • 5 – 8 anos: 26
  • 9 – 11 anos: 28
  • 12 anos: 29
  1. MOCA: pacientes com maior escolaridade. 
  • Pontuação máxima: 30. 
  • Normal: > 26.


  • Teste de fluência verbal: evocar o maior número de animais em 1 minuto.
  • Escolaridade < 8 anos: 9 itens
  • Escolaridade > 9 anos: 13 itens




  • DEFICIÊNCIAS SENSORIAIS
    1. Audição: Teste do Sussurro
    2. Visão: Tabela de Snellen


  • INCONTINÊNCIA URINÁRIA 

“Já perdeu urina?”


  • ESTADO NUTRICIONAL: 
  • Mini Avaliação Nutricional


  • Perda involuntária significativa:
  • 5% em 1 mês
  • 5-7% em 3 meses
  • 10% em 6 meses


  • POLIFARMÁCIA / MEDICAÇÕES INAPROPRIADAS
  • 5 ou mais medicações: tentar desprescrição;
  • Utilizar ferramentas como: Critérios de Beers; START/STOP;
  • Avaliar interações medicamentosas;
  • Atentar para surgimento de sintomas novos;
  • Evitar cascata iatrogênica.


  • FATORES SOCIOAMBIENTAIS
  • Suporte familiar, social e financeiro;
  • Sinais de maus tratos/violência;
  • Indicação de interdição;
  • Estresse do cuidador;
  • Segurança no ambiente;
  • Curatela / Institucionalização;
  • APGAR da família


  • DIRETIVAS ANTECIPADAS DE VONTADE
  • Abordagem quanto aos desejos e preferências;
  • Escolha de representantes para decisões.

Aproveite e ouça o nosso podcast

Veja esse artigo também