Geriatria Clínica

Níveis de hemoglobina glicada em idosos diabéticos e risco de demência

Vários estudos tem correlacionado os níveis de hemoglobina glicada (HbA1c) em idosos diabéticos e desenvolvimento de demência. Os mecanismos subjacentes a essa associação são complexos, com trabalhos mostrando relação entre HbA1c persistentemente elevada, hipoglicemia e variação da glicemia neste processo. Alguns apontam para uma associação em forma de U entre controle glicêmico e incidência de demência, sugerindo que valores extremos, tanto altos quanto baixos, contribuem para disfunção cognitiva nos idosos diabéticos.

Diante das peculiaridades do tratamento desta morbidade no indivíduo idoso, existe a recomendação de utilização de faixas terapêuticas da HbA1c de acordo com algumas características apresentadas pelos pacientes. A ADA tem como meta para idosos saudáveis, com poucas comorbidades, boa cognição e funcionalidade, a HbA1c abaixo de 7.5%, ao passo que para aqueles com múltiplas doenças crônicas coexistentes ou dependentes, o controle deve ser menos rigoroso, com HbA1c abaixo de 8 a 8.5%.

O benefício da personalização de alvos de HbA1c de acordo com idade, expectativa de vida e comorbidades sobre a incidência de doença de Alzheimer e demências relacionadas (ADRD) foi demonstrado em estudo publicado no JAMA. Trazemos hoje highlights deste artigo para quem acompanha as novidades no GeriClass.

 

Métodos

  • Estudo de coorte realizado de janeiro/2004  a dezembro/2018 através de acesso aos dados do Veterans Health Administration and Medicare.
  • Os veteranos eram diabéticos 65 anos (média de idade: 73,2 anos), 99% do sexto masculino.
  • Foi desenvolvida uma medida de controle glicêmico através do tempo, o que chamaram de HbA1c time in range (TIR), ou seja, o percentual de dias em que a HbA1c do indivíduo permaneceu dentro da faixa individualizada para ele ao longo do período do estudo (exemplo: HbA1c TIR 60% = paciente permaneceu em sua faixa de HbA1c recomendada durante 60% do tempo de acompanhamento).
  • As faixas-alvo de HbA1c recomendadas no estudo foram de 6-7%, 7-8%, 7,5-8,5% e 8-9%. Essas faixas foram baseadas na expectativa de vida do paciente, na presença de comorbidades e complicações do diabetes.
  • O estudo também calculou o tempo fora da faixa, categorizando em time below range (TBR) – tempo em que HbA1c ficou abaixo da faixa estabelecida – e time above range (TAR) – tempo em que HbA1c ficou acima da faixa estabelecida. 




Resultados

  • HbA1C TIR (tempo de HbA1c dentro da faixa estabelecida) e incidência de ADRD
    • Pacientes com menores HbA1c TIR apresentaram maior risco de desenvolvimento de ADRD.
    • Quando comparados a HbA1c TIR 80%, pacientes com HbA1c TIR entre 0 e 20% apresentaram o maior risco (HR 1.59). Após controle de todas as variáveis, HbA1c TIR ainda permaneceu significativamente associada a maior risco de ADRD (HR 1.19).


  • Tempo de HbA1c fora da faixa 60% e incidência de ADRD
    • HbA1c TBR (abaixo da faixa) 60% foi associado ao maior risco de ADRD (HR 1.48). Após controle de todas as variáveis, HbA1c TBR 60% ainda permaneceu significativamente associada a maior risco de ADRD quando comparada a HbA1c TIR 60% (HR 1.23).
    • Não houve associação entre incidência de ADRD e HbA1c TAR (acima da faixa) 60% (HR 0.96).
    • Foi visto que menores médias de HbA1c (< 6%) e maiores médias de HbA1c ( 8%) foram associadas significativamente ao aumento do risco de ADRD.

 

Discussão

  • Nesse grande estudo de coorte foi visto que a estabilidade da HbA1c dentro das faixas-alvo individualizadas esteve associada a menor risco de ADRD.
  • Quando a HbA1c esteve na maior parte do tempo fora da faixa, uma HbA1c TBR 60% foi associada ao aumento do risco de ADRD. Esses dados reforçaram que, em idosos diabéticos, mais tempo de HbA1c abaixo da faixa apropriada está associado a um risco maior de disfunção cognitiva.
  • Os resultados mostram que níveis de glicose extremos, através da média de HbA1c, estão associados ao aumento no risco de demência, reforçando a necessidade de estabilidade da HbA1c para redução deste risco.
  • Foi visto também que maior tempo abaixo da faixa de HbA1c recomendada, mesmo após considerar eventos de hipoglicemia e uso de medicações hipoglicemiantes, estava associado a maior risco de ADRD.

 

Conclusão

  • Os achados do estudo sugerem que a estabilidade do controle glicêmico ao longo do tempo pode ser mais importante do que os níveis glicêmicos per se, em idosos portadores de diabetes.
  • Ressaltamos também, ao trazer este estudo, a importância do estabelecimento de faixas de HbA1c personalizadas para cada idoso diabético, considerando sempre sua idade, expectativa de vida e comorbidades.



REFERÊNCIAS

– Underwood, Patricia; et.al. Glycated Hemoglobin A1c Time in Range and Dementia in Older Adults With Diabetes. JAMA. 2024; 7(8).

 

– Tratado de Geriatria e Gerontologia. Freitas, E.V.; Py, L.; Neri, A. L.; Cançado, F. A.. X.C.; Gorzoni, M.L.; Doll, J. 5ª. Edição.



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