Geriatria Clínica

Risco cardiovascular: um pouco além do colesterol

Marcadores sanguíneos podem ser de grande utilidade no entendimento de processos biológicos e para acionar intervenções cardiovasculares, como evidenciado ultimamente com a redução farmacológica do colesterol LDL. No entanto, a comunidade clínica vem se movimentando além da redução do LDL por si só, e marcadores como PCR de alta sensibilidade e lipoproteína (a) (LpA) vem mostrando importância no alvo de intervenções cardiovasculares.

Até o momento, 3 estudos randomizados, placebo-controlados, evidenciaram que a redução da inflamação pode diminuir significativamente eventos cardiovasculares. A colchicina, um agente antiinflamatório, foi aprovada recentemente pelo FDA para redução de eventos ateroscleróticos.

Até então, trabalhos tem sido realizados para intervenções a curto prazo (3-5 anos). Porém, viu-se a necessidade de estudos de longo prazo, principalmente em mulheres, por se tratar de gênero em que a doença cardiovascular se mantém subdiagnosticada e subtratada.

Em agosto de 2024 a revista New England trouxe um estudo bastante relevante para a prática clínica, considerando desfechos cardiovasculares, principalmente no contexto de identificação de marcadores precoces de eventos que ocorrerão décadas à frente. Vamos para os highlights?

 

Métodos

  • Foram dosados PCR de alta sensibilidade, LDL e LpA no início do estudo em mais de 27.000 mulheres americanas, inicialmente saudáveis, que foram acompanhadas posteriormente por 30 anos.
  • A média de idade das mulheres ao início do estudo foi 54,7 anos.
  • O end point primário foi composto por infarto agudo do miocárdio (IAM), revascularização miocárdica, AVC ou morte por causa cardiovascular.
  • A população estudada foi então estratificada por quintis (5 faixas com pontos de cortes diferentes para cada biomarcador), sendo o quintil 1 o referente aos menores níveis de biomarcadores e o quintil 5 referente aos maiores níveis.

 

Resultados

  • O risco relativo de ocorrência do end point primário quando comparados quintil 5 com quintil 1 foi de:
    • 1.70 para PCR de alta sensibilidade;
    • 1.36 para LDL;
    • 1.33 para LpA.
  • Ajustes realizados para uso de terapia de reposição hormonal, IMC e taxa de filtração glomerular não pareceu apresentar efeitos sobre os resultados.
  • Os efeitos da PCR e do LDL sobre o risco de ocorrência do end point primário atenuaram marginalmente ao longo do tempo:
    • PCR: risco relativo para cada aumento de quintil foi de 1.17 (0-15 anos) e 1.12 (15-30 anos);
    • LDL: risco relativo para cada aumento de quintil foi de 1.13 (0-15 anos) e 1.06 (15-30 anos);
    • Não houve atenuação com o tempo no caso da LpA.
  • Os níveis de PCR, LDL e LpA contribuíram independentemente para o risco, e a maior estimativa de risco ocorreu quando foram usados os 3 biomarcadores combinados:
    • RR de 1.0: grupo referência. Participantes que não tiveram níveis de biomarcadores no quintil 5;
    • RR de 1.27: participantes com 1 biomarcador em nível do quintil 5;
    • RR de 1.66: participantes com 2 biomarcadores em níveis de quintil 5;
    • RR de 2.63: participantes com 3 biomarcadores em níveis do quintil 5. 
  • Os efeitos combinados também foram observados nos end points individuais de AVC e DAC quando os 3 biomarcadores se encontravam no quintil 5:
    • AVC: RR de 1.68;
    • DAC: RR de 3.71.
  • Mesmo após ajustes para início de estatina e idade, a análise continuou mostrando efeitos preditivos robustos para os 3 biomarcadores ao longo do tempo.

 

Conclusão

  • Neste estudo de coorte prospectivo com mulheres inicialmente saudáveis, uma combinação de medidas de PCR de alta sensibilidade, LDL e LpA trouxe forte evidência de aumento de risco cardiovascular durante um período subsequente de 30 anos.
  • O estudo mostra a necessidade de irmos além da redução dos níveis de LDL, focando também na redução da inflamação, com o intuito de reduzir risco cardiovascular.
  • Os dados trazem implicações para intervenções farmacológicas e no estilo de vida. Porém, embora modificações comportamentais possam reduzir PCR e LDL, elas tipicamente não reduzem os níveis de LpA, a qual é essencialmente determinada geneticamente.
  • O estudo é consistente com a hipótese de que intervenções que objetivam um grupo diverso de alvos biológicos podem ser necessárias para proteção de doença aterosclerótica.

 

REFERÊNCIAS

  • Ridker, Paul M, et al. Inflamation, Cholesterol, Lipoprotein (a), and 30-Year Cardiovascular Outcomes In Women. N Engl J Med, Agosto 2024.

 

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