Geriatria Clínica

Osteoartrite e multimorbidade

Highlights de um artigo original

A osteoartrite (OA) afeta mais de 500 milhões de pessoas no mundo e se configura como grande causa de dor e incapacidade funcional globalmente. Parte do fardo associado à OA ocorre devido à alta prevalência de doenças crônicas coexistentes, as quais estão presentes em cerca de 7 a cada 10 pessoas portadoras de OA (20% mais frequentes do que em controles pareados para idade e sexo).

Fatores sistêmicos, como inflamação de baixo grau e desregulação metabólica, tem sido apontados como o elo perdido entre OA e condições múltiplas. Estudos recentes tem reforçado a hipótese de que multimorbidade está associada à incidência de OA, a qual, por sua vez, parece aumentar o risco de se desenvolver condições adicionais.

Hoje o GeriClass traz mais um artigo original, publicado no British Medical Journal, mastigado para seus seguidores se manterem atualizados. Vamos adiante?

Introdução

Objetivos e desenho do estudo:

  • Identificar as trajetórias de multimorbidade ao longo de 20 anos entre indivíduos que apresentaram incidência de OA no período e suas referências pareadas que não apresentaram OA;
  • Estimar a associação entre OA e as trajetórias das comorbidades identificadas.
  • Foi um estudo de coorte realizado na Suécia baseado na análise de registros de banco de dados em saúde de uma região por um período de 20 anos.
  • Foram identificadas 9.846 pessoas que preenchiam o critério de inclusão e receberam o primeiro diagnóstico de OA (média de idade: 65.9 anos).
  • 19.692 indivíduos foram utilizados como referência (livres de AO).
  • O estudo definiu 4 classes de multimorbidade, de acordo com alguns critérios pré-especificados: 
    • Multimorbidade leve de progressão tardia (classe 1); 
    • Multimorbidade leve de progressão precoce (classe 2): 
    • Multimorbidade moderada (classe 3); 
    • Multimorbidade grave (classe 4).

Resultados

  • A quantidade de condições crônicas ao final do seguimento foi menor na classe 1 (2.9) e maior na classe 4 (9.6).
  • A incapacidade funcional e mortalidade seguiram o mesmo padrão: foram menores na classe 1 e maiores na classe 4, onde 57% dos indivóduos foram a óbito ao final do seguimento.
  • A prevalência de AO dentre as classes seguiu o seguinte padrão:
    • Classe 1: 29%
    • Classe 2: 31%
    • Classe 3: 35%
    • Classe 4: 41%.
  • Constatou-se que a presença de OA esteve associada ao risco de pertencer a qualquer classe de multimorbidade quando comprada à classe “ausência de doença crônica”, mesmo após ajuste para idade, sexo, escolaridade, estado civil e renda.
  • OA esteve associada a um risco relativo de 1.29 (classe 1) até 2.45 (classe 4), respectivamente, quando comparada à classe “ausência de doença crônica”.

Discussão

  • Foram identificadas 4 trajetórias de morbidade que descreveram tendências progressivamente crescentes ao longo dos 20 anos.
  • Os resultados mostraram como indivíduos com OA são mais propensos a apresentarem multimorbidade mais grave do que aqueles que não desenvolveram OA, uma vez que possuem um risco 3 vezes maior de terem uma trajetória de multimorbidade grave.
  • Os resultados sugerem que OA pode, em alguns casos, preceder multimorbidade – como pode se observar na classe 1 – enquanto, em outros casos, OA é diagnosticada quando a multimorbidade já está estabelecida. Esses resultados sugerem que a OA é parte de um continuum mórbido em que a OA e outras condições crônicas concorrem para o desenvolvimento de multimorbidade mais grave.
  • No estudo, a trajetória mais grave de multimorbidade apresentou o maior risco de incapacidade, sugerindo que indivíduos com OA – que tem maior risco relativo de pertencer a esta trajetória – possuem mais chances de enfrentar um nível maior de incapacidade do que aqueles sem OA.
  • O estudo também identificou uma casse de indivíduos que não desenvolveram condições crônicas durante o período de seguimento. Esta foi a menor parcela dentre as classes identificadas e possuíam a menor prevalência de OA.
  • A idade é um fator importante na multimorbidade uma vez que aumenta o risco de desenvolvimento de condições crônicas e pode até influenciar na taxa à qual estas condições ocorrem. Porém, a correlação entre OA e multimorbidade permaneceu inalterada, indicando que a associação entre essas duas variáveis se estende além da idade.
  • Baixo nível de atividade física, dietas hipercalóricas e inflamação de baixo grau foram levantados como uma ligação plausível entre OA e outras doenças crônicas.

Conclusão

O estudo indica fortemente que indivíduos com OA estão mais propensos a apresentar multimorbidade, uma vez que expressam um risco quase  3 vezes maior de desenvolverem multimorbidade grave ao longo de 20 anos, inclusive após ajuste para vieses de confusão, como idade, sexo e status socioeconômico.

REFERÊNCIA:

– Dell’Isola, Andrea, et. al. Twenty-year trajectories of morbidity in individuals with and without osteoarthritis. BMJ, Julho 2024.

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