Reações adversas a drogas (RADs) são definidas como qualquer resposta nociva, indesejada e não intencionada a um agente terapêutico, que podem ser esperadas ou não. São comuns na prática clínica e, frequentemente, causas de hospitalizações, particularmente em idosos, os quais costumam usar múltiplas medicações e possuem multimorbidades.
Hoje trazemos um artigo de revisão da European Geriatric Medicine que aborda tema dos mais relevantes em geriatria.
Classificação
Diferentes métodos podem ser utilizados para classificar as RADs, porém, a classificação de Thomson e Rawlins é bem didática e bastante utilizada:
- Tipo A: ocorre em resposta a drogas administradas em dose terapêutica e é resultado de uma resposta anormal a um efeito farmacológico normal. É comum e geralmente não está associada a evento fatal. Exemplos: hipotensão ortostática com medicações anti-hipertensivas; efeitos anticolinérgicos dos antidepressivos tricíclicos.
- Tipo B: evento não está relacionado ao efeito farmacológico ou dose da medicação, sendo por vezes fatal. Exemplos: reações de hipersensibilidade como anafilaxia a penicilinas; reações idiossincrásicas como hipertermia maligna com anestésicos.
- Tipo C: está relacionada ao acúmulo de dose de uma terapia de longo prazo. Exemplos: supressão adrenal por corticoides.
- Tipo D: relacionada ao momento da terapia. Exemplos: discinesia tardia, teratogênese, carcinogênese.
- Tipo E: relacionada ao desmame de uma medicação. Exemplos: abstinência com retirada de opióides e benzodiazepínicos.
- Tipo F: falha na efetividade terapêutica. Exemplos: resistência a agentes antimicrobianos, dosagem inadequada de contraceptivo oral quando utilizado com ativador enzimático.
Ocorrência
- A Comissão Europeia estimou que aproximadamente 5% das admissões hospitalares ocorrem por RADs e 5% dos pacientes hospitalizados irão apresentar uma RAD durante sua estadia.
- Em 2008, na Europa, 197.000 mortes foram atribuídas a RADs.
- Estudo realizado nos EUA entre 2004 e 2005 mostrou que pacientes acima de 65 anos representaram 25,3% das entradas em emergências por RADs e 48,9% dos eventos necessitaram de hospitalização.
- Pacientes com mais de 65 anos apresentaram susceptibilidade duas vezes maior de desenvolverem RADs do que os mais jovens (RR 2.4).
- Varfarina, insulina e digoxina foram os agentes causais em quase 1/3 das admissões em pacientes acima de 65 anos.
- Outro estudo mostrou que 51% das admissões hospitalares relacionadas a medicações estavam associadas a apenas 4 grupos de drogas: agentes antiplaquetários (16%), diuréticos (16%), AINES (11%) e anticoagulantes orais (8%). Esses dados mostram que as RADs estão muito associadas a medicações de uso frequente na prática clínica.
- Em estudo americano recente com residentes de ILPI, foi evidenciado que antipsicóticos (OR 3.4), anticoagulantes (OR 2.8), diuréticos (OR 2.2) e antiepilépticos (OR 2.0) aumentavam o risco de eventos adversos, sendo delirium, sedação e quedas as manifestações mais frequentes.
Fatores de risco em idosos
Vários fatores associados ao avanço da idade possuem um papel no aumento do risco de RADs:
- Mudanças no metabolismo das drogas: existem alterações na farmacocinética e distribuição, afetando o metabolismo das drogas.
- Fragilidade: idosos frágeis possuem 2 vezes mais chance de desenvolver ao menos uma RAD durante sua hospitalização e de receber uma receita potencialmente inapropriada.
- Multimorbidade: esta condição aumenta as chances de interação medicamentosa e de interação droga-doença.
- Síndromes geriátricas: podem reduzir o benefício potencial do tratamento farmacológico, aumentam o risco de RADs e a taxa de prescrições inapropriadas.
- Alterações sensoriais e cognitivas: levam a erros ou não adesão ao tratamento pelo paciente.
- Polifarmácia: o fator relacionado à idade mais relevante para maior prevalência de RADs em idosos.
Estratégias de prevenção
- Praticar a desprescrição para manejar a polifarmácia através da redução de medicações desnecessárias ou potencialmente inapropriadas.
- Scott et al. sugeriram um protocolo de 5 passos para facilitar o processo de desprescrição:
- Passo 1: Revisar as medicações.
- Passo 2: Considerar o risco geral de RADs.
- Passo 3: Acessar riscos e benefícios futuros de cada medicação.
- Passo 4: Descontinuar medicações do Tipo E ou que benefício não supere os riscos.
- Passo 5: Monitorar reações adversas e se melhora nos desfechos.
Revisão das medicações
Os regimes medicamentosos devem ser revisados periodicamente, ao menos uma vez por ano.
Ferramentas para identificar prescrição inapropriada
- Critérios de Beer
- START/STOPP
- FORTA
Softwares
Diferentes softwares tem sido desenvolvidos para apoiar os médicos no momento da prescrição, com algoritmos capazes de identificar prescrição potencialmente inapropriada, risco de doença iatrogênica, dose adequada de medicação, interações medicamentosas e tratamentos contraindicados.
Avaliação geriátrica ampla (AGA)
Estudo com idosos frágeis demonstrou uma redução de 35% em RADs graves e uso de drogas inapropriadas com o uso da AGA + reavaliação sistêmica da lista de medicações utilizadas pelo paciente.
Conclusão
- Tanto o processo de prescrição quanto o de desprescrição não podem ser realizados sem uma documentação cuidadosa do estado de saúde do paciente, o que inclui:
- Diagnóstico de condições clínicas e geriátricas;
- Revisão rigorosa das medicações (prescritas ou não prescritas);
- Análise de RADs prévias;
- Definição clara de prioridades e objetivos do tratamento.
- Em idosos com polifarmácia, novas medicações devem ser tituladas lentamente para reduzir o risco de eventos adversos e novos sintomas devem ser considerados possíveis RADs.
- Estas orientações são fundamentais para evitar a famosa prescrição em cascata ou cascata iatrogênica.
REFERÊNCIA:
– Zazzara, Maria Beatrice, et al. Adverse drug reactions in older adults: a narrative review of the literature. European Geriatric Medicine. Março, 2021.