A prevalência de pré-diabetes e diabetes aumenta substancialmente com a idade. Nos EUA, cerca de 25% dos adultos com mais de 65 anos possuem diabetes, enquanto mais de 50% chegam a fechar critérios para pré-diabetes, a depender da definição utilizada. Apesar da alta prevalência destas condições entre os idosos, a progressão da hiperglicemia com o tempo – seja para pré-diabetes em paciente normoglicêmico ou para diabetes no pré-diabético – é pouco caracterizada nesta população.
Objetivos
Este trabalho do JAMA procurou comparar a prevalência de pré-diabetes – baseada na hemoglobina glicada, glicemia de jejum ou ambas – e avaliar a progressão de normoglicemia para pré-diabetes e de pré-diabetes para diabetes numa coorte de idosos do Estudo ARIC (Atherosclerosis Risk in Communities).
Desenho
- Análise prospectiva de 3.412 idosos (média de idade 75,6 anos) não portadores de diabetes de uma coorte do Estudo ARIC. Participantes foram contactados semestralmente por 6,5 anos;
- Pré- diabetes foi definido por uma hemoglobina glicada entre 5.7 e 6.4% e/ou glicemia de jejum alterada (100-125 mg/dL);
- Incidência de diabetes foi definido como: diagnóstico do médico assistente, uso de medicações hipoglicemiantes, hemoglobina glicada > 6.4% ou glicemia de jejum > 125 mg/dL.
Resultados
- Pacientes com hemoglobina glicada entre 5.7 e 6.4%:
– 9% progrediram para diabetes
– 13% regrediram para normoglicemia
– 19% foram a óbito.
- Pacientes com glicemia de jejum alterada (100-125 mg/dL):
– 8% progrediram para diabetes
– 44% regrediram para normoglicemia
– 16% foram a óbito.
- Pacientes com hemoglobina glicada menor que 5.7%
– 17% progrediram para glicada entre 5.7 e 6.4%
– 3% desenvolveram diabetes.
- Dentre os pacientes com glicemia de jejum < 100 mg/dL:
– 8% progredirem para glicemia de jejum alterada (GJ 100-125 mg/dL)
– 3% desenvolveram diabetes.
Discussão
- Durante o período de seguimento de 6,5 anos, menos de 12% dos idosos progrediram de pré-diabetes para diabetes.
- Uma proporção substancial de indivíduos portadores de pré-diabetes no início do estudo regrediu para normoglicemia na visita de acompanhamento (13% dentre aqueles com glicada entre 5.7-6.4% e 44% dentre os que apresentavam glicemia de jejum alterada).
- Em idosos com pré-diabetes, regressão para normoglicemia e óbito foram mais comuns que a progressão para diabetes no período do estudo.
- Intervenções em adultos com pré-diabetes podem reduzir o risco de progressão para diabetes. O Diabetes Prevention Program Trial demonstrou que intervenção intensiva no estilo de vida e, em menor extensão, o uso de metformina, reduziu o risco de progressão para diabetes em adultos de alto risco maiores de 25 anos.
- Guidelines da ADA recomendam que adultos pré-diabéticos sejam referenciados para intervenção quanto à mudança de estilo no vida e aumento da atividade física.
- Metformina é recomendada em pacientes menores de 60 anos com IMC maior ou igual a 35 ou em mulheres com história de diabetes gestacional.
- Dado o baixo risco de progressão para diabetes neste estudo, é pouco provável que intervenção farmacológica para prevenção de diabetes em idosos possa garantir benefícios, aumentando ainda risco de eventos adversos.
- Este estudo ressalta a potencial futilidade no screening agressivo do diabetes em idosos, dadas as baixas taxas de progressão entre aqueles com pré-diabetes.
Conclusões
A prevalência de pré-diabetes foi alta entre idosos; porém, a evolução desta entidade para diabetes foi incomum no período de seguimento de 6,5 anos, e a regressão para normoglicemia ou morte foi maior que a progressão da doença.
Os resultados deste estudo sugerem que pré-diabetes pode não ser um diagnóstico robusto capaz de prever progressão para diabetes nesta população.
FONTE: JAMA International Medicine, Fevereiro de 2021. Risk of Progression to Diabetes Among Older Adults With Prediabetes.