Contextualizando
Agitação associada à demência é definida como atividade motora excessiva, agressão verbal ou física, capazes de causar fadiga e estresse excessivos, além de queda da funcionalidade, os quais não podem ser atribuídos a um ambiente que carece de cuidado adequado ao paciente ou qualquer outra desordem (critérios da Associação Internacional de Psicogeriatria). A agitação na demência é comum e possui um efeito negativo sobre a funcionalidade do paciente e sobre os impactos em sua saúde e qualidade de vida. Além disso, aumenta o risco de estresse do cuidador, o tempo dispendido para prestar assistência ao paciente e pode contribuir para institucionalizações precoces, reduzindo o tempo do idoso em seu domicílio.
Devido à falta de opções farmacológicas para o tratamento da agitação na demência, é comum o uso de drogas off-label para o controle desta condição, às custas de informações insuficientes quanto à dose, eficácia e segurança dessas medicações. Alguns antipsicóticos atípicos são utilizados para controle de agitação nos pacientes portadores de demência, porém, possuem um perfil desfavorável de risco/benefício que deve ser levado em conta no momento da prescrição.
O estudo
Em dezembro de 2023, a revista Jama Neurology publicou artigo sobre o uso do brexpiprazol em pacientes com agitação associada à Demenência de Alzheimer. Foi um estudo clínico randomizado, duplo-cego, placebo-controlado que se estendeu de maio de 2018 a junho de 2022 em 123 locais dos Estados Unidos e Europa.
Os pacientes foram randomizados entre grupos que receberam 2mg ou 3mg de brexpiprazol ou placebo durante 12 semanas. Os resultados foram avaliados através do end point primário mudança na pontuação total da Cohen-Mansfield Agitation Inventory (CMAI), escala que avalia a frequência de 29 comportamentos associados à agitação, no início da terapia e ao final das 12 semanas.
Um total de 228 pacientes receberam brexpiprazol e 117 utilizaram placebo. Aqueles que receberam 2 ou 3mg da droga mostraram melhora significativa no CMAI quando comparados aos que utilizaram placebo (p = 0.003). A proporção de pacientes que descontinuaram o estudo por conta de eventos adversos foi de 5.3% no grupo do brexpiprazol contra 4.3% no grupo placebo.
40,7% dos pacientes que utilizaram brexpiprazol referiram efeitos adversos, enquanto a proporção entre os que utilizaram placebo foi de 31%, sem aparente diferença entre as doses de 2 ou 3mg. Cefaleia foi o único efeito adverso com incidência maior que 5% no grupo do brexpiprazol.
Conclusão
O estudo concluiu que o tratamento da agitação na Demência de Alzheimer com 2 ou 3mg de brexpiprazol não apenas se mostrou eficaz, como também seguro nesta população ao longo das 12 semanas. Baseado neste e em outros trabalhos anteriores, brexpiprazol foi autorizado para tratamento da agitação na Demência de Alzheimer nos Estados Unidos.
Um pouco sobre a droga
O brexpiprazol é um antipsicótico atípico que atua nos neurotransmissores noradrenérgico, serotoninérgico e dopaminérgico, os quais estão implicados na neuroquímica da agitação da Demência de Alzheimer. A dose máxima para o tratamento desta condição é de 3mg uma vez ao dia e deve ser alcançada através de aumentos graduais, ao longo de 2 a 4 semanas. Pacientes portadores de insuficiência hepática ou renal moderada a grave devem ter dose máxima limitada a 2mg/dia. Importante relatar eventos comuns (frequência de 1 a 10%) como elevação da pressão arterial, ganho de peso, distúrbios do sono (insônia ou sedação), espasmos musculares, infecção urinária. Atentar para interações medicamentosas com cetoconazol, inibidores de receptação de serotonina, rifampicina, antirretrovirais e anticonvulsivantes. Como todo antipsicótico, atentar para o surgimento de sintomas extrapiramidais.
Referências
– JAMA Neurol. 2023;80(12):1307-1316. doi:10.1001/jamaneurol.2023.3810 Published online November 6, 2023.
– Rexulti® Bula Profissional