Geriatria Clínica

Vitamina D e saúde extra-esquelética em idosos

Exemplo ilustrado de celulas e Vitamina D

 

A deficiência de vitamina D ocorre frequentemente entre os idosos e uma concentração baixa está relacionada a osteoporose, osteomalácia, sarcopenia e mialgia. Dados epidemiológicos robustos tem indicado que o risco de câncer e de doenças infecciosas, autoimunes e cardiovasculares é mais alto quando os níveis de vitamina D estão abaixo de 20. Por outro lado, os riscos diminuem com concentrações mais altas de vitamina D.

Todos os fatores que interferem nos estágios metabólicos individuais podem afetar as concentrações séricas de vitamina D. Alguns fatores conhecidos são aqueles que interferem com a atividade do citocromo CYP3A4 e as interações medicamentosas que ocorrem principalmente em pacientes portadores de comorbidades. Osteoporose e sarcopenia são algumas das consequências da hipovitaminose D, podendo ocasionar fraturas, redução da funcionalidade, aumento do risco de quedas, fragilidade e pior qualidade de vida na população idosa.

Porém, o papel da suplementação da vitamina D além das indicações formais sobre a saúde esquelética ainda sem mantém duvidoso e pesquisas sobre o assunto tem se mostrado conflitantes.

Hoje o GeriClass vai abordar um pouco sobre esse tema.

 

A população geriátrica

  • A população geriátrica apresenta características específicas, como idade (idosos jovens, idosos, e muito idosos), envelhecimento com ou sem sucesso, status funcional, comorbidades, polifarmácia e presença ou ausência de síndromes geriátricas.

  • O ponto de corte de vitamina D na população geral para garantir a saúde esquelética e extra-esquelética é de 30 ng/mL. No entanto, o ponto de corte específico para a população geriátrica (especialmente os muito idosos) é motivo de debate, uma vez que os estudos controlados randomizados geralmente são conduzidos com idosos mais jovens.

 

Sarcopenia

  • Estudos sobre deficiência de vitamina D tem demonstrado que, além da osteomalácia, pacientes referem frequentemente fraqueza muscular, com incidência chegando até 97%.

  • Em alguns estudos, baixas concentrações séricas de vitamina D estavam associadas a um maior risco de sarcopenia e fragilidade em idosos.

  • A deficiência de vitamina D contribui para a disfunção mitocondrial e estresse oxidativo nas células musculares.

  • Indivíduos com deficiência de vitamina D possuem menor força muscular e um maior risco de queda, o que pode ser reversível através da suplementação.

  • O maior benefício da suplementação de vitamina D sobre a força muscular tende a ocorrer em pacientes com níveis basais abaixo de 10 ng/mL.

 

 

 

Quedas

  • A suplementação de vitamina D em idosos não institucionalizados não reduz o risco de queda.

  • Altas doses intermitentes (em bolus) de vitamina D (500.000UI anualmente) devem ser evitadas, uma vez que podem aumentar transitoriamente o risco de quedas.

  • O mesmo se aplica para doses de vitamina D em cerca de 60.000UI mensalmente, capazes de elevar os níveis séricos da vitamina acima de 50 ng/mL.

 

Interações medicamentosas

  • Existem poucas evidências robustas de que inibidores de lipase, estatinas, antimicrobianos e anticonvulsivantes podem afetar as concentrações séricas de vitamina D.

 

Câncer

  • Câncer de cólon: a OMS identificou associação entre deficiência de vitamina D e risco de câncer de cólon. Quando comparados a níveis de 20-25 ng/mL, níveis de vitamina D < 12 ng/mL foram associados a maior risco (RR 1.31), enquanto níveis > 30 ng/mL foram associados a menor risco (RR 0.81 a 0.73, a depender do valor alcançado).

  • Câncer de mama e próstata: os dados ainda são inconsistentes.

  • Prevenção: as evidências atuais são insuficientes para apoiar suplementação de vitamina D em altas doses com intuito de prevenir câncer. A maioria dos estudos de intervenção com vitamina D não evidenciaram redução do risco.

 

Autoimunidade

  • Estudos observacionais em humanos sugerem associação entre deficiência de vitamina D e diabetes tipo 1, esclerose múltipla, artrite reumatoide e doença inflamatória intestinal.

  • No estudo VITAL, participantes com idade média de 67 anos e vitamina D basal de 30 ng/mL foram randomizados para receber vitamina D (2000UI/dia) ou placebo. Após seguimento médio de 5,7 anos, a incidência cumulativa de doença autoimune (particularmente artrite reumatoide e polimialgia reumática) foi menor no grupo de tratamento (0.9% X 1.2% – HR 0.78).

  • Esclerose múltipla: estudo caso-controle envolvendo cerca de 7 milhões de militares americanos com níveis de vitamina D < 20 ng/mL evidenciou que estes apresentavam aproximadamente um risco duas vezes maior de apresentar a doença.

 

Infecção

  • Uma relação causal entre vitamina D e infecção não tem sido estabelecida de forma consistente.

 

 

 

Doença cardiovascular

  • Embora estudos observacionais tenham mostrado uma associação entre baixos níveis de vitamina D e risco de hipertensão e eventos cardiovasculares, a maioria de ensaios randomizados não tem evidenciado benefício da suplementação sobre a saúde cardiovascular.

 

Função neuropsiquiátrica

  • Baixos níveis de vitamina D estão frequentemente presentes em pacientes com depressão e doença de Alzheimer.

  • Metanálise de estudos observacionais evidenciou pontuações mais baixas no Mini Exame do Estado Mental em pacientes com menores concentrações de vitamina D.

  • Estudos que avaliaram os efeitos da suplementação nesta população mostraram achados inconsistentes.

 

Suplementação

  • Pacientes com deficiência (< 12 ng/mL) ou insuficiência (< 12-20 ng/mL) de vitamina D devem receber suplementação.

  • Pacientes sem insuficiência ou deficiência de vitamina D não devem receber suplementação além do que preconizado para o manejo de osteoporose.

  • Dosagens

    • A cada 100 unidades (2.5mcg) de vitamina D3 adicionada, as concentrações séricas de vitamina D aumentam em 0.7 a 1.0 ng/mL, com maiores incrementos vistos em pacientes com menores níveis basais da vitamina.

    • Níveis de vitamina D < 12 ng/mL: 25.000 a 50.000UI uma vez por semana por 6 a 8 semanas, seguidos de manutenção de 800UI diariamente.

    • Níveis de vitamina D entre 12 e 20 ng/mL: 800-1000UI diariamente. Repetir a avaliação após 3 meses. Se alvo não atingido, fornecer doses mais altas.

    • Níveis de vitamina D entre 20 e 30 ng/mL: 600-800UI diariamente.

    • Doses anuais maiores que 500.000UI ou mensais em torno de 60.000UI foram associadas a maior risco de queda entre idosos.

    • A vitamina D deve ser ingerida junto a alimentos, para otimizar sua absorção.

 

 

 

REFERÊNCIAS

– Kupisz-Urbánska, M, et al. Vitamin D Deficiency in Older Patients – Problems of Sarcopenia, Drug Interactions, Management in Deficiency. Nutrients. Abril de 2021.

– Prokopidis K, Giannos P, Katsikas Triantafyllidis K, et al. Effect of vitamin D monotherapy on indices of sarcopenia in community-dwelling older adults: a systematic review and meta-analysis. J Cachexia Sarcopenia Muscle 2022; 13:1642. 

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