O acidente vascular encefálico (AVE) é uma condição bastante prevalente no mundo, e a grande parte das mortes por esta condição ocorre em maiores de 70 anos. Enquanto a mortalidade vem caindo nos países desenvolvidos, ela atinge índices cada vez mais elevados nos países subdesenvolvidos, e o Brasil tem a quarta pior taxa de mortalidade por AVE entre os países da América Latina e Caribe.
Parte dos AVE’s ocorre por embolização causada por fibrilação atrial (FA), e um dos questionamentos levantados pela equipe, diante de um AVE por FA, é: qual o melhor momento para iniciar a anticoagulação? O tratamento com os novos anticoagulantes orais (NOACs) reduz o risco de AVE isquêmico e embolização sistêmica. Porém, o quanto o momento de iniciar o NOAC é capaz de influenciar o risco de recorrência do AVE e sangramento ainda é incerto. O início precoce pode aumentar o risco de hemorragia intracraniana, enquanto o início tardio pode aumentar o risco de recorrência precoce de AVE.
A maioria dos guidelines utiliza a regra do “1-3-6-12-dias”, em que o anticoagulante é iniciado, respectivamente, após ataque isquêmico transitório (1), ou após AVE leve (3), moderado (6) ou grave (12 dias).
Hoje o GeriClass traz mais um artigo de grande relevância para a prática clínica, capaz de auxiliar na tomada de decisão. O estudo ELAN, publicado na revista New England, comparou os desfechos clínicos com anticoagulação precoce ou tardia em pacientes admitidos por AVE embólico. Vamos aos highlights?
Métodos
Estudo aberto (avaliadores eram cegos), randomizado, conduzido em 103 centros espalhados por 15 países.
Pacientes elegíveis eram aqueles admitidos com AVE isquêmico e portadores de FA permanente, persistente ou paroxística não valvar, ou com FA diagnosticada durante a hospitalização pelo AVE.
Um total de 2013 participantes foi randomizado na proporção 1:1 para receberem anticoagulação precoce ou tardia.
A idade média dos participantes foi de 77 anos.
Anticoagulação precoce foi definida como início do NOAC:
Dentro de 48h após início dos sintomas nos pacientes com AVE leve a moderado;
Nos dias 6 ou 7 após início dos sintomas em pacientes com AVE grave.
Anticoagulação tardia foi definida como início do NOAC:
No dia 3 ou 4 após início dos sintomas nos pacientes com AVE leve;
No dia 6 ou 7 após início dos sintomas nos pacientes com AVE moderado;
No dia 12, 13 ou 14 após início dos sintomas nos pacientes com AVE grave.
A gravidade do evento foi classificada de acordo com critérios radiológicos (tomografia ou ressonância).
Desfecho primário: composto por AVE recorrente, embolização sistêmica, sangramento extracraniano grave, hemorragia intracraniana sintomática ou morte vascular 30 dias após randomização.
Desfechos secundários: análise individual dos eventos do desfecho primário.
Resultados
Evento de desfecho primário ocorreu em 2.9% dos pacientes com anticoagulação precoce e em 4.1% daqueles com anticoagulação tardia (OR 0.70).
Desfechos secundários:
Sangramento extracraniano grave até 30 dias após randomização: 0.3% no grupo de anticoagulação precoce e 0.5% no grupo de anticoagulação tardia (OR 0.63).
Hemorragia intracraniana sintomática até 30 dias após randomização: 0.2% em ambos os grupos (OR 1.02).
AVE isquêmico recorrente até 30 dias da randomização: 1.4% no grupo da anticoagulação precoce e 2.5% no grupo da anticoagulação tardia (OR 0.57).
A incidência de um composto de eventos (AVE isquêmico recorrente, embolização sistêmica, sangramento extracraniano grave, hemorragia intracraniana sintomática ou morte vascular) em 90 dias foi de 3.7% no grupo de anticoagulação precoce e de 5.6% no grupo de anticoagulação tardia (OR 0.65).
As taxas cumulativas de AVE isquêmico recorrente em 90 dias foram de 1.9% no grupo de anticoagulação precoce e de 3.1% no grupo de anticoagulação tardia (OR 0.60).
Discussão
O estudo ELAN foi capaz de corroborar o início precoce de NOACs em pacientes com AVE isquêmico embólico, apesar de alguns protocolos, como guidelines europeus e da AHA recomendarem início inclusive após 14 dias do quadro, de acordo com a gravidade do evento.
O estudo preferiu utilizar definições radiológicas de gravidade em vez de baseada no escore NIHSS, por ser uma alternativa independente da localização e do tamanho do infarto.
O estudo aponta a necessidade de mais trabalhos para confirmar se o resultado pode ser reproduzido nos casos de definições de gravidade baseadas no NIHSS.
Limitações apontadas: exclusão de pessoas já em uso de terapia anticoagulante antes do evento e a baixa média do escore NIHSS na randomização.
REFERÊNCIAS:
– U. Fischer, M, et al. Early versus Later Anticoagulation for Stroke with Atrial Fibrillation. N Engl J Med. Junho de 2023.
– Tratado de Geriatria e Gerontologia. Freitas, E.V.; Py, L.; Neri, A. L.; Cançado, F. A.. X.C.; Gorzoni, M.L.; Doll, J. 5ª. Edição.