Geriatria Clínica

Artroplastia de quadril ou treino de força para osteoartrite grave de quadril: até onde ser conservador?

Ilustração de dores no femor

A osteoartrite (OA) de quadril é um fator relevante no desenvolvimento de incapacidade, afetando 33 milhões de pessoas no mundo. Na Austrália e Europa, a chance de realizar uma artroplastia de quadril na vida é de 8 a 16%. O procedimento é capaz de aliviar a dor, reduzir declínio funcional e melhorar a qualidade de vida. Até 86% dos pacientes relatam estar satisfeitos com o resultado após 6 meses da cirurgia.

Faltam dados em literatura capazes de comparar a efetividade do procedimento com técnicas não cirúrgicas, e estas comparações são necessárias, uma vez que alguns procedimentos ortopédicos não se mostram superiores a tratamentos não invasivos.

A prática de exercício físico é recomendada rotineiramente no tratamento não cirúrgico da OA de quadril, e o treino de resistência parece levar a uma redução moderada da dor e alguma melhora na funcionalidade, mesmo naqueles pacientes em programação de artroplastia.

Hoje o GeriClass traz um artigo recém publicado na New England que compara os resultados da artroplastia de quadril com treino de força em pacientes com OA de quadril grave. O intuito de trazer esta abordagem é auxiliar nossos seguidores na tomada compartilhada de decisão junto ao paciente portador desta condição. Vamos aos highlights?


Métodos

  • Estudo de superioridade multicêntrico, randomizado, controlado que comparou artroplastia de quadril e treino de força em pacientes portadores de OA de quadril grave acima de 50 anos.

  • Total de 109 pacientes participaram do estudo, com média de idade de 67,6 anos.

  • O tempo médio de seguimento foi de 6 meses após início da terapia.

  • Desfecho primário: mudança na dor e na função em quadril reportadas pelo paciente após 6 meses do início da terapia.

  • A avaliação foi realizada através da aplicação do Oxford Hip Score (pontuação vai de 0 a 48, em que pontuações mais altas indicam menos dor e melhor função).


Resultados

  • O aumento médio no Oxford Hip Score foi de 15.9 pontos no grupo de artroplastia de quadril e de 4.5 pontos no grupo de treino de força (diferença de 11.4 pontos; P<0.001).

  • Em 6 meses, 9% dos pacientes destinados à artroplastia não realizaram a cirurgia, enquanto 21% daqueles destinados ao treino de força optaram por realizar tratamento cirúrgico.

  • No grupo de treino de força, 59% dos pacientes realizaram artrolpastia de quadril em até 12 meses e 77% se submeteram ao procedimento em 24 meses.

  • A incidência de eventos adversos graves foi semelhante nos 2 grupos.

  • Porém, dado importante: as trajetórias das escalas Oxford Hip Score e Hip Disability and Osteoarthritis Outcome Score favoreceram o grupo de artroplastia de quadril até 12 meses, enquanto todos os desfechos relatados pelos pacientes foram semelhantes nos 2 grupos aos 24 meses.

  • Outro dado importante: a artroplastia de quadril não proporcionou melhoras clinicamente significativas em relação ao treino de força no que tange nível de atividade física, velocidade de marcha ou teste de sentar-levantar em 6 meses.


Conclusão

  • Embora os resultados favoreçam o tratamento cirúrgico, eles não se opõem ao uso do treino de força como tratamento inicial.

  • Mesmo em pacientes que se submetem à artroplastia de quadril como última alternativa, estudos prévios corroboram que a recuperação pós-operatória é mais rápida dentre os que fazem treino de força supervisionado do que aqueles que não praticam.

  • Algumas limitações do estudo:

    • Estudo não cego.

    • Os resultados poderiam subestimar a verdadeira diferença entre os tratamentos durante o período de seguimento, uma vez que 9% dos pacientes do grupo da artroplastia decidiram não realizar o procedimento e 21% daqueles no grupo de treino de força realizaram a cirurgia em 6 meses.

    • A maior proporção de pacientes com artroplastia prévia contralateral no grupo de treino de força do que no grupo de artroplastia pode ter influenciado as expectativas do paciente sobre o treino de resistência e afetado as estimativas sobre o efeito do tratamento.

  • De toda forma, este estudo apoia recomendações atuais quanto ao manejo de OA de quadril e pode ser utilizado para informar e guiar uma tomada de decisão conjunta na prática clínica.


REFERÊNCIA:

– Frydendal, Thomas et. al. Total Hip Replacement or Resistance Training for Severe Hip Osteoarthritis. N Engl J Med, Outubro 2024.


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