Com uma prevalência estimada de 2,5 a 26% na população geral e de 3 a 40% entre os idosos, a deficiência de vitamina B12 é um tema bastante relevante na prática clínica, principalmente no atendimento ao paciente idoso.
Já de conhecimento geral, a deficiência de B12 está associada a algumas condições neuropsiquiátricas, tais quais delirium, demência, convulsões, depressão e até catatonia; porém, uma manifestação pouco explorada neste contexto é a alucinação. Os achados inclusive apontam que as alucinações podem anteceder os sintomas mais conhecidos da deficiência de B12, como anemia perniciosa, polineuropatia e doença da medula espinhal.
Em 2021, Nichols et al. publicaram um relato de caso sobre alucinação relacionada à deficiência de B12, acompanhado de uma revisão de 17 casos publicados, chegando a algumas conclusões:
- As alucinações nem sempre recebem a atenção necessária, principalmente quando comparadas às outras manifestações da deficiência de B12;
- A rápida suplementação com cobalamina pode levar a uma remissão completa das alucinações;
- A conexão biológica entre alucinações e deficiência de B12 se mantém pouco descrita.
Hoje o GeriClass traz um artigo de revisão com base em 50 relatos de casos pertinentes ao tema sob estudo. Vamos aos highlights?
Resultados
- Alucinações visuais foram relatadas em 42% dos casos.
- Alucinações auditivas foram relatadas em 40% dos casos.
- Uma combinação de alucinações auditivas e visuais foi relatada em 6% dos casos.
- Alucinações olfatórias foram relatadas em 4% dos casos.
- Em 84% dos casos foram relatados sintomas neuropsiquiátricos adicionais, tais quais paranoia, catatonia, ansiedade, alteração de humor, agitação e agressividade.
- 66% dos pacientes apresentavam sintomas neurológicos, como neuropatia periférica, disestesia, instabilidade de marcha, fraqueza muscular, rigidez, ataxia, flutuação do nível de consciência e alteração da memória.
- 6% dos pacientes desenvolveram paraplegia por degeneração da medula espinhal.
- As causas da deficiência de vitamina B12 foram relatadas em 84% dos casos:
- Malnutrição: 36%
- Malabsorção: 24%
- Dieta vegana, vegetariana ou lactovegetariana: 16%
- Uso abusivo de gás hilariante (N2O): 14%
- Doença da cobalamina C: 12%
- Abuso de álcool: 4%
- Tratamento prolongado com folato: 2%
Desfechos com o tratamento
- 71% dos pacientes foram tratados exclusivamente com cobalamina, e o restante, com outras medicações além da cobalamina, tais quais antipsicóticos, antidepressivos, benzodiazepínicos e anticonvulsivantes.
- 75% apresentaram total recuperação do quadro alucinatório, enquanto 25% tiveram recuperação parcial.
- O tempo médio de tratamento foi de 57 dias (variação de 1 a 365 dias).
- A monoterapia ou o tratamento adjuvante com cobalamina se mostraram efetivos em virtualmente todos os casos, num tempo médio de 2 meses.
- As outras manifestações neuropsiquiátricas da deficiência de B12 tenderam a desaparecer mais tarde no curso do tratamento, com todos os sintomas desaparecendo por completo em 60% dos casos.
Diagnóstico
O artigo traz algumas considerações interessantes sobre o diagnóstico da deficiência de B12:
- Tomar alguns pontos de corte como absolutos pode subestimar uma deficiência clinicamente significativa em pessoas com necessidades metabólicas diferentes.
- Uma vez que os testes podem variar em sua capacidade de distinguir entre cobalamina biologicamente ativa ou inativa, a pesquisa por deficiências pode levar a achados falso-negativos.
- Outro ponto importante é que os níveis séricos não são equivalentes aos níveis tissulares. Assim, níveis no limite inferior de normalidade devem ser considerados como “possível deficiência”.
Recomendações para a prática clínica
Na maioria dos serviços de saúde, a investigação rotineira das causas de alucinações não inclui testagem de vitamina B12. No entanto, mesmo a suplementação com cobalamina não sendo um método baseado em evidências, o autor recomenda considerá-la nas seguintes circunstâncias:
- Alucinações associadas a deficiência de vitamina B12;
- Alucinações na presença de níveis séricos de vitamina B12 no limite inferior da normalidade;
- Alucinações na presença de níveis séricos normais de vitamina B12 e níveis elevados de folato;
- Alucinações na presença de níveis séricos normais de vitamina B12 e história de cirurgia gástrica ou intestinal;
- Alucinações de causa indefinida;
- Alucinações resistentes ao tratamento.
Limitações do estudo
- A principal limitação do artigo foi o pequeno número de casos disponíveis e adequados para inclusão;
- Atualmente temos um insight parcial sobre o metabolismo da vitamina B12 e ainda menos na relação entre deficiência de B12 e alucinações, o que leva a um menor número de publicações sobre o tema.
REFERÊNCIA:
– Blom, Jan D. Hallucinations and Vitamin B12 Deficiency: A Systematic Review. Psychopathology, julho 2024.